segunda-feira, 23 de abril de 2012
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Os Peixes do Rio Madeira Desaparecem
Conforme previsto pelos cientistas e ignorado pelo Governo, o impacto ambiental da Hidrelétrica de Santo Antônio no rio Madeira resultou no desaparecimento dos peixes, principalmente o bagre, naquele rio. A relação feita a Belo Monte é inevitável, pois o curso dos procedimentos governamentais quanto ao impacto ambiental em ambos os projetos segue a mesma metodologia.
Leia mais no blog xingu vivo para sempre , SE O POVO SOUBESSE / Observador Político.
Matéria publicada no EcoDebate, 20/01/2012.
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Matéria publicada no EcoDebate, 20/01/2012.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Nós Cabanos
Encontrei este artigo sobre o aniversário da Cabanagem que muito me comoveu e resolvi postá-lo. É nossa História e é História também de todo aquele que resiste ao poder tirânico, mesmo que travestido em democracia.
Leiam e confirmem.
ALGUÉM MORREU EM CUIPIRANGA
José Ribamar Bessa Freire
08/01/2012 - Diário do Amazonas
Quem é que morreu em Cuipiranga? Foi algum cuipiranguense ilustre? Por que o cemitério dessa modesta comunidade ribeirinha está lotado com tanta gente nesta manhã de domingo, 8 de janeiro de 2012? Eram previstas 250 a 300 pessoas que sairiam às 8h00 caminhando pelo trapiche. Quantas vieram? Quem são elas? Por que desfilam, tão compenetradas, entre covas, tumbas e jazigos? Onde vão depositar as coroas de flores que carregam? De quem ... Clique aqui para ler mais sobre esta crônica http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=954
Leiam e confirmem.
ALGUÉM MORREU EM CUIPIRANGA
José Ribamar Bessa Freire
08/01/2012 - Diário do Amazonas
Quem é que morreu em Cuipiranga? Foi algum cuipiranguense ilustre? Por que o cemitério dessa modesta comunidade ribeirinha está lotado com tanta gente nesta manhã de domingo, 8 de janeiro de 2012? Eram previstas 250 a 300 pessoas que sairiam às 8h00 caminhando pelo trapiche. Quantas vieram? Quem são elas? Por que desfilam, tão compenetradas, entre covas, tumbas e jazigos? Onde vão depositar as coroas de flores que carregam? De quem ... Clique aqui para ler mais sobre esta crônica http://www.taquiprati.com.br/cronica.php?ident=954
terça-feira, 14 de junho de 2011
O Cometa (Conto Poético Psicológico - Final)
um buraco negro

Supernova

Havia algo à sua frente que ele com muito custo conseguiu distinguir do que se tratava, pois depois de tanto tempo ali sua visão estava turva. Era uma pequena luz, mas ele não sabia se a via de fato ou era alguma ilusão, uma miragem.
E conforme ele mais descia, menos entendia o que estava acontecendo. Logo não via nem ouvia mais nada. Nem mesmo sabia se estava de olhos abertos ou fechados. Achava que às vezes via algo ou ouvia vozes, mas não entendia e nem sabia se dirigiam-se a ele. Com o tempo desistiu de entender alguma coisa.
Apenas percebia que o tempo passava e que ele descia velozmente no Buraco Negro. Na verdade, no decorrer do tempo, ao perceber que há muito que estava sendo sugado, ele passou a somente querer que chegasse tudo a um fim qualquer.
“O que será isso?” - pensou, apertando os olhos.
“Eu conheço essa luz...? Já a vi em algum lugar?” – perguntou-se depois de um tempo.
Era uma luz muito pequena, mas o calor, a chama, a energia, tudo lhe era familiar.
Aos poucos a idéia de um Astro, uma Estrela e uma jornada em forma de pepino foi voltando à sua memória.
“Acho que é a saudade, a solidão deste lugar. Me faz ter fantasias.”
É, de fato, nunca se ouviu a notícia, em todos esses anos-luz no Universo Sideral, de que algo ou alguém tenha escapado ou se libertado de um buraco negro assim.
“Aqui não há saída. Essa luz deve ser um sonho.”
Então, não soube de onde – mas com certeza não do nada! – ele achou que veio uma daquelas vozes que às vezes ele ouvia, e agora ele a entendia...?!?
Era assim a voz:
“Mesmo quando parece que não há mais nada que se possa fazer ainda podemos sonhar. Tudo sempre começa ou se abre com um sonho.”
A voz não se repetiu mais, porém ele gravou cada palavra em sua mente. E é possível que isso tenha sido até fácil porque a frase também vinha carregada de um sabor de nosso quarto de menino.
“Há um planeta azul” - lembrou - “muito vivo e belo, que é meu amigo e está em algum lugar lá fora” – e uma lágrima ardente de cometa escorreu em sua face.
“Nunca se ouviu que alguém tenha saído daqui. Deve ser verdade.”
Mas a frase do planeta ecoava - no seu ouvido? na sua mente? nas profundezas daquele Grand Canyon do espaço?
Apenas ecoava.
E por isso Fosco pensou:
“Isso não quer dizer que seja impossível.”
Ele olhou a pequena luz – na verdade não tirava os olhos dela.
“Talvez essa luz seja uma fantasia” – e ele lembrou do Astro à cuja energia ele pertencia e era seu rumo. Lembrou também da beleza do balé do Universo ao qual fazia parte.
“Se essa pequena luz que vejo é uma fantasia talvez seja porque sem um pouco de fantasia fique difícil respirar.”
“E não seria, talvez, aqui o melhor lugar para se enxergá-la? O que é um buraco negro, afinal?”
Supernova
“É assim então o dia no cosmos: uma estrela especial morre explodindo e ao ir morrendo brilha intensamente como jamais brilhou. Seu brilho na explosão – chamada Supernova - é visto em distâncias inimagináveis. Ela se divide e parte Universo afora para se transformar em novas estrelas.
Todo dia somos levados como ovelhas ao matadouro.
Ela morreu e em seu lugar ficou um buraco negro, mas, como uma semente que apodrece para germinar uma plantinha, estrelas nasceram dela.
Aquela luz não lhe parecia pequena porque ele estivesse também brotando?
Ali seria uma passagem para a visão dessa Luz em sua face mais doce?”
E algo lhe dizia – uma outra voz que ele entendeu??? – que só saberia se era uma fantasia se tentasse uma saída.
Mas como?
Aqui seria muito fácil dar um final feliz a esta história, mas infelizmente a história de Fosco ainda não tem um fim. Assim como a de muitos cometas.
Mas como? Como tentar uma saída?
Fosco pensou. Talvez a primeira coisa a fazer fosse seguir o conselho de seu planeta amigo e manter seu sonho. Depois ficar com o ouvido atento, se alguma outra voz se dirigia a ele, uma voz que ele a compreendesse, que falasse com ele.
E, ainda, não tirar os olhos jamais da pequena luz que agora ( ! ) até já lhe parecia um pouco maior...
Conto da escritora amazônida Alaíde Xingu
domingo, 29 de maio de 2011
O Cometa (Conto Poético Psicológico - Continuação)
Se os corpos celestes não se movimentassem muito no céu, ou apenas alguns viajassem, talvez a história fosse outra.
Mas as luas giram ao redor dos planetas; e os planetas giram ao redor das estrelas; e as estrelas também se movem nas galáxias; as galáxias, constelações, nebulosas, também dançam no colosso magnífico do Universo Sideral. Todo astro, pequeno ou gigante, se move. E toda essa movimentação é harmoniosa e esplêndida que não há como não se ouvir uma maravilhosa sinfonia conduzindo os contra-passos desse balé perfeito. (Apenas os meteoros fogem dessa harmonia perfeita.)
Fosco fez outras amizades e encontrou alguns que ele achou que não valia a pena ter como amigos. E houve outros que ele achava que deveria fugir deles. Mas sobre isso até que agora ele ia indo bem.
Porém, ele andou ouvindo, atento nas conversas, mas sem fazer muitas perguntas, algo que o aterrorizava. E toda vez que isso acontecia Fosco seguia adiante sentindo como nunca o quanto um cometa anda só em seu percurso. Às vezes, isso acontecia quando ele estava numa volta em seu pepino oposta, muito, muito distante de sua Luz.
- Ora, sou ágil. Não sou alvo fácil. Posso queimar, posso fugir.
E, pensando estas coisas, seguia imaginando-se em mil situações, em combates, e - veja - se saindo herói.
Mas ele bem sabia, tinha ouvido muitas vezes (não dava pra fazer de conta que seria fácil) que grandes estrelas - estrelas !!! - haviam sido sugadas como pó estelar naquele obscuro, sinistro, absolutamente desconhecido, grande bueiro.
"Nada escapa" - era o que todos afirmavam.
"Ninguém consegue fugir!"
"Ninguém consegue sair!"
"Tudo some e nada volta ..."
Na sua jornada, ele passou muitas vezes pelo Astro. E sempre que o via ficava extasiado, pois se aproximava mais. Houve uma vez em que se aproximou tanto que esteve certo que ia mergulhar e nadar docemente naquela chama, naquela energia à qual ele mesmo pertencia e da qual havia sido feito.
Mas, quando parecia que isso ia acontecer, não aconteceu e lhe pareceu que precisava dar mais uma volta no pepino.
"Desta vez acho que será a última."
"Talvez eu volte a encontrar alguns amigos, quem sabe, o planeta azul!?" - e seguiu pensando em coisas boas que aconteceriam logo à frente, coisas que o animassem.
"Tudo afinal depende do balé do Universo."
E seguiu veloz, veloz o quanto pode um cometa meio distraído, mas que tem um alvo.
Encontrou, sim, velhos amigos. Conheceu novos. Viu coisas belas. Enfrentou pequenos perigos e, satisfeito - orgulhoso mesmo, por que não? - saiu-se muito bem.
Ria, muitas vezes, pois há muita coisa engraçada no céu: constelações, por exemplo. Também levava sustos uma vez ou outra, mas isso acontecia principalmente porque se desorientava fácil. Mas, enfim, já havia aprendido que era preciso ter senso de humor.
Muito vagarosamente, porém, ele começou a perceber que havia algo errado, como uma má notícia que as pessoas não ousam ou não querem contar.
E isso ele começou a perceber sem entender. Ele notava pelas expressões daqueles a quem encontrava na sua rota.
Aos poucos, conforme seguia em frente, essas expressões se tornaram mais freqüentes e houve mesmo quem baixasse os olhos ao vê-lo.
Logo ele passou a ouvir um rumor que entendeu que tinha a ver com ele em algum sentido.
Mas Fosco tinha uma trajetória e seguiu bem reto em seu rumo. Firmou seus olhos adiante e foi quando ele viu, ainda muito longe, mas - não havia nenhuma chance de ser diferente - bem na direção de seu percurso, estava aquilo que aterrorizava não somente a ele, mas a todos - gigantes ou insignificantes corpos do Universo: o sinistro e em seu interior absolutamente desconhecido Buraco Negro.
A luta de Fosco começou desde o momento em que viu o Buraco Negro. Se formos honestos, devemos dizer que sua luta já havia começado muito antes, quando ouviu as primeiras notícias de sua existência e poder e precisava ser sereno e não ceder ao medo.
Mas, agora que o via à sua frente e lhe era inevitável, sabia que estava a um passo do desespero. Então se concentrou em não se desesperar e - pequeno como era - lutou como um gigante tentando fugir do poder que o sugava para o desconhecido, o formidável despenhadeiro.
O Buraco Negro, porém, não faz distinção de tamanho, força ou cor. Ele pode e, se quiser, suga qualquer um; e ninguém pode negar isso ...
Fosco aos poucos foi sumindo.
(Continua no próximo post)
Conto da escritora amazônida Alaíde Xingu
terça-feira, 17 de maio de 2011
O Cometa (Conto Poético Psicológico)

Esta é uma história que sou forçada a contar, pois o personagem principal, que eu conheço pessoalmente, há um longo tempo insiste que eu a conte.
- Há alguém que a quer ler - diz ele.
Eu tenho as minhas dúvidas, pois esta é uma história sobre astros, galáxias, espaço sideral, embora não seja uma história de ficção científica. E nem mesmo de ficção, porque o espaço, o céu e nós somos um bocado parecidos.
Há muito em comum entre o céu e nós, bem mais do que podemos ver (quem disse isso foi alguém muito mais sábio e famoso que eu, mas quem foi essa pessoa e quais palavras ele usou, não demorará, vocês logo descobrirão).
Tudo aconteceu numa galáxia conhecida. Não vou dizer qual, pois seu nome não é assim tão importante, mas digo que talvez seja a mesma sua. Realmente, não é impossível que seja a sua.
Contudo, não pense que é fácil entender de que galáxia estou falando. Muitos se enganarão achando que é, provavelmente, a mais óbvia. Mas não é. Esta galáxia a que me refiro não é tão fácil de ser identificada. Mas, quando a conhecemos, se chegamos a percebê-la, não a esquecemos, não a queremos deixar jamais. E até somos capazes de heroísmos - de certa forma, loucuras - por ela. Logo você pode ver como ela é especial.
Vivia um cometa nessa nossa galáxia. Não um grande e importante cometa, como o Halley. Decididamente, não. Era um pequeno cometa. Eu gostaria muito de poder dizer que ele era esperto, lógico, prático.
Qualquer cometa entende bem o que digo.
Mas, embora ele chegasse de vez em quando a se achar assim, de fato ele não o era. Era até desajeitado. E, muitas vezes, desorientado na sua trajetória. E isto é meio vergonhoso para um cometa, já que todo cometa tem sua trajetória bem definida. É preciso dizer, porém, em defesa dele, que o espaço é muito aberto, a rota de um cometa é longa, e - fique muito bem entendido, para que ninguém se apresse a desdenhá-lo - que cada cometa é que sabe os próprios perigos que enfrenta no espaço!
No entanto, o importante a contar não é tanto a galáxia, nem mesmo o cometa. O que é importante nesta história é a sua trajetória. Ele girava, como todo cometa, em torno de um grande astro luminoso, fulgurante e poderoso fazendo uma volta parecida não com uma grande laranja, nem com um ovo gigantesco, mas parecido com um muito, muito, muito enorme mesmo, pepino.
E aquele cometa adorava o seu Astro, sua Luz, sua Estrela, seu Sol, sua Energia - chame-o como quiser, fique à vontade.
Pensar no Astro, em seu tamanho imenso, em sua energia, fazia seu coração de cometa feliz rir e, realmente, - embora nem todos entendam - até gargalhar em sua viagem.
Às vezes, porém, também o fazia se acabrunhar. Cada vez que ele estava no ponto mais distante do Sol em seu itinerário no imenso pepino, havia uma saudade, uma saudade dolorida. Achava que não ia conseguir se aproximar de novo.
A trajetória é o que mais importa porque ela era toda a vida daquele cometa: vindo perto do Astro, que ficava numa das pontas do pepino e indo longe, muito distante na outra ponta do pepino que eu - que nada sei de Astronomia - não posso medir no Universo. Então, sua trajetória, além de ser toda a sua vida, era também sua alegria e sua dor. Seu frio, seu calor.
Quando sabia que era hora de se afastar e ser exposto aos males do espaço, ele estremecia. Mas era assim que era. Sabia que aquela era a rota para passar bem perto novamente de sua Estrela, e isto ele queria mais que tudo. Um dia, ele passaria tão perto que seria atraído cabalmente e sua chama se uniria à chama da Luz. Esse era seu rumo.
E, enquanto isso, havia muitas coisas legais para se ver e amigos novos para fazer.
Certa vez, ele passou perto de um planeta e ficou deslumbrado.
- Que lugar bonito!
O planeta era, de fato, habitado, rico de vida e beleza. E logo o cometa pensou em si, solitário, sem uma única plantinha para regar!
Mas isso ele resolveu fácil. Bastava não pensar. Afinal, o planeta não tinha uma cauda como a sua, não iluminava a escuridão, não passava tão perto do Astro ...
Um perigo de quando começamos a fazer comparações e enumerar aquilo que somos é o risco de fantasiarmos e incluirmos o que não somos em nossa lista. E Fosco - este era o seu nome - às vezes gostava de fantasiar sobre si mesmo.
Mas ele achou aquele planeta vivo tão simpático e agradável que sua mente ficou absolutamente desocupada, tão absorto se encontrava em admirar tanta beleza.
- Olá! - disse o planeta saudando-o com um sorriso amigável.
- Oh!, desculpe minha distração. Olá!
- Quem é você? Posso perguntar?
O planeta era bem educado.
"Sou um cometa em órbita
rumo ao dia em que mergulhará
na energia do Sol,
que é energia como eu.
Uma volta e ele lá longe ...
De repente, aqui muito perto!
Sou um cometinha em órbita,
rumo ao Sol, isso é certo!"
Este era um poeminha que Fosco criara e gostava de repetir para si mesmo ao atravessar o horizonte sideral, e, ali, para aquele planeta tão amigo, Fosco pensou em recitá-lo como resposta à pergunta. Mas na hora apareceu uma bola na garganta e saiu apenas isto:
- Sou Fosco, um cometa.
- Ah, Fosco, que bom conhecer você! Muitos cometas passam por aqui, alguns muito perto, outros bem distante. Ainda não havia visto você ...
- É por causa do balé do Universo ...
- É verdade, o balé ...
- Você é bem bonito! Eu venho admirando sua cor azul ainda de bem longe ... Você deve ter uma saúde ótima!
Contudo, mal Fosco disse isso, o planeta sem querer - ele era bem educado, como já foi dito - não se conteve e tossiu:
- Cof!
- Ah, deve ser só um resfriado - disse Fosco.
- Cof! Cof! Cof!
E o planeta repentinamente teve um ataque de tosse que lhe deixou de um azul quase roxo e Fosco ficou completamente sem graça, achando que devia dizer algo gentil.
- Vai passar ... Deve ser o ar ... - tentou o cometa.
- E é! É o ar! É sempre o ar, Fosco, a atmosfera, nós e nosso ambiente.
- Você sabe o que fazer nesse caso?
- Há muito que se possa fazer, e mesmo quando parece que não há mais nada que se possa fazer ainda podemos sonhar. Tudo sempre começa ou se abre com um sonho.
- Não sei se voltarei a encontrar você. Você sabe, por causa do balé do Universo, mas você conquistou toda a minha simpatia e afeição. E isso vai permanecer.
E os dois amigos se separaram.
Porque no Universo às vezes amigos precisam se separar.
(Continua no próximo post)
O Cometa, conto de Alaíde Xingu
sexta-feira, 15 de abril de 2011
O Meu Cavalo de Batalha (Conto neo-Psicológico)
Hoje faz chuva e trovoada.
Já faz algum tempo que percebi estar, de alguma forma, nesta linha de frente. E foi demorado perceber isto. Foi uma dura jornada, pois ela é identificável apenas por causa de uma lanterna, acesa ininterruptamente, alertando misericordiosamente as trincheiras do infortúnio.
Hoje faz chuva e trovoada enquanto norteio meu cavalo de batalha. Como ele é forte! Penso nele e é impossível não me comover. Quanto foi preciso atravessar para reconhecer que há no mundo todo apenas dois seres, duas terras, dois céus: meu cavalo de batalha e eu!
Fico olhando a brancura da chuva, ouvindo seu som, entre estas duas árvores. Entre as duas é o melhor lugar para estar agora. Entre elas eu olho tranqüilo o torrencial e desejo ser uma árvore tal qual elas são. Os trovões, porém, estalam impiedosos e ao relampejarem alguma coisa começa a ser visualizada no portal daquela brancura. Se as duas árvores pudessem ver, elas enxergariam um verde no meu rosto e uma sombra no meu olhar; se as duas árvores pudessem ver.
Não é preciso demorar meu olhar. Eu vislumbro entre o portal da brancura da chuva iluminada pelo relampejo do trovão e esse vislumbre, que de alguma forma já me é desafortunadamente familiar, não me entristece, nem me suscita cólera, nem lamúrias. Já suscitou, mas era quando o portal não era visível. Eu levanto, porém, e caminho lutando às vezes covarde, às vezes estoicamente para vencer meu estômago, aquele verde e aquela sombra.
- Já era tempo, digo para mim mesmo. Já era tempo de reagir melhor.
- Veja, aqui estão suas armas. Vista-se!
Eu, que havia me curvado pelo mal estar, reconheço a voz de meu cavalo. Ele não parece se importar com náuseas. Eu obedeço.
- São muitos, desta vez? Pergunto. Me pareceram mais palpáveis.
- Cada vez que vierem serão piores, responde ele.
Então, num acesso de exasperação, eu me descontrolo:
- O que mais posso eu fazer? O que é que me falta? E vomito outras coisas assim.
Mas o cavalo não me responde mais. Ele não aprova minha exasperação.
Contudo, na medida em que vou me acalmando, ele volta a repetir:
- Vista-se! Tome suas armas.
A verdade é que tenho dificuldades ao me vestir. E as armas estão pesadas. Estou tão cansado, tão cansado. Pesa uma tristeza, porque isso já é rotina. Desculpo a mim mesmo dizendo que são as investidas contínuas... De repente, porém, uma das armas acaricia minhas mãos, reluz levemente e me lembra seu esplendor natural, me lembra também que tenho a companhia do cavalo, a dignidade dessas coisas.
- Se for preciso, cavalgaremos sobre um rochedo mais alto, mesmo que seja alto demais para nós. A voz do cavalo era então extremamente delicada. Apenas fique quieto em meu dorso e sustente as armas. Lembre das águias, das alturas.
Eu procuro lembrar. Procuro também não olhar a chuva, nem sua brancura, nem ouvir trovões. Os vagalhões do mar são mais poderosos que uma torrente, e sempre haverá quem é mais poderoso que os vagalhões do mar.
Concentro então minha atenção em me vestir. Examino minhas armas mui cuidadosamente procurando descobrir nelas o prazer conhecido de seu toque e resgatar nossa familiaridade. Por que me afastei delas, um nada que tenha sido? Fui me vestindo; e a cada roupa, cada peça me encouraçando, uma sensação de força externa vem, me desperta; uma veste sobre um corpo desnudo e inseguro; uma nova natureza envolvendo uma velha. O verde e a sombra se foram.
Ao me voltar para o cavalo alguma coisa havia acontecido. Na minha frente, fitando-me soberanamente está um gigante, formidavelmente perfeito, altivo: um soberano absoluto. Com quem se pode compará-lo, ou que semelhante se confrontará com ele? Fico com os olhos arregalados, sem expressão que seja: nem dor, nem êxtase, nem medo. Nada que eu tenha, seja, ou sinta terá valor ou contribuirá para bem ou mal. Um soberano independente está diante de mim e está me fitando. Se ele quiser agir, quem o impedirá? Diante dele, de que adiantam minhas tímidas armas, minha ridícula couraça? Oh, desgraça, maior que meus inimigos, é este! Diante dele, que importa viver ou morrer, ter ou ser, resistir ou se render? A minha miséria de não possuir escolha e estar à sua mercê, quem compreende? Mas ele está fitando minha couraça e minhas armas e, se eu sou agora um vazio incapaz de qualquer reação ou emoção, ele, para surpresa minha, tem uma voz de brisa e uma comoção no olhar.
- Sou eu, não tenha medo, sou eu, com quem você tem cavalgado todas as vicissitudes.
Minha cara diz o que não posso:
“É você? O meu cavalo de batalha? É você mesmo?”
Eu estaria tremendo, se pudesse. Mas, um mineral inanimado é o que sou.
- Cada vez que os inimigos forem mais ferozes, maior você me verá também.
- Minha vida é uma obra estranha, um ato inaudito.
- A minha também. A vida é muito diferente de nossas proposições e sugestões. Mas eu sou feliz. Você não poderia ser feliz também? Vale a pena continuar.
- Sim.
Há tempos eu não o reconhecia. Mas desde que vi pela primeira vez, através do portal, a guerra que também o enxerguei. Não há o que falar sobre derrotas ou vitórias, nem sobre glórias ou fracassos, sobre vidas e mortes... Há apenas um cavalo que luta numa batalha. Ele leva alguém, e sou eu, claro. Mas, quando a velocidade dele aumenta formidavelmente entre o furor dos inimigos, não é minha a mão que segura a espada, nem minha é a voz que o dirige; eu sou então o passageiro inerte que vislumbra sinais, ouve sons como numa alucinação, e quase definha. Nos relampejos do trovão se ilumina também que sobre meu cavalo, bem à minha frente e a quem de alguma forma estou atrelado, monta um outro cavaleiro, e para descrevê-lo eu não saberia escrever os volumes. Apenas digo que tudo passa mais uma vez. Olho à minha volta. Delicadamente, a visão de meu cavalo me desembrutece: eu tenho, sim, eu tenho sido poupado. Perto de mim está sempre ele, quieto, enchendo meus olhos, há minutos apenas tão grande e feroz, meu cavalo e cavaleiro!
Nesta chuva e trovoada eu penso que não sei quando novamente vou precisar de armadura, quando novamente precisarei montar, nem quando de fato vou descansar.
Mas agora tudo está quieto e seguro.
Conto da escritora amazônida Alaíde Xingu
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